Memória de Elefante

Eu realmente não sabia o que esperar de Memória de Elefante, a HQ do Caeto, que saiu no final de 2010 pelo selo Quadrinhos na Cia, da Companhia das Letras.

E as primeiras das 230 páginas dão a impressão que é mais uma história sobre um artista tentando se virar numa cidade grande e passando por perrengues como falta de grana e moradia enquanto enche a cara e tenta se dar bem com as mulheres.

Nisso até se sai bem, mas fica aquela sensação de “ta, agora me mostre algo que eu já não tenha visto antes”. E ele mostra.

O que no começo parece apenas falta de sorte de um cara de classe média, aos poucos é “explicado”.

Ele não tenta justificar suas falhas com os problemas entre seu pai, que é um caso bem mais complicado do que é possível explicar aqui em poucas linhas (e que vale a pena ver na HQ). Mas todas as fontes de seus problemas aparecem claramente, num interessante jogo de ação/reação.

No final das contas, Caeto não fica devendo em nada para HQs autobiográficas como Fun Home, de Alison Bechdel, que ganhou um Eisner de melhor obra baseada em fatos em 2007.

Coincidem, inclusive, em pontos como a homossexualidade. O mais engraçado é que a coisa é tratada de modo bem mais escancarado e desencanado por Caeto, mesmo não sendo o assunto principal, como é em Fun Home. O autor parece ter se incomodado muito mais com o fato de ter sido negligenciado pelo pai do que pela falta de pudor e tato dele ao tratar de sua homossexualidade.

A aparente desordem cronológica do álbum dá um ritmo legal ao que ele pretende contar e o tom despretensioso instiga a leitura, assim como o traço – que é simples, mas eficiente.

Sobre a linguagem, que foi apontada por aí como “com alguns erros” e algumas partes onde acontece uma repetição em desenho do que é dito em texto, acredito fazer parte não apenas do estilo do autor, mas de sua formação.

No livro, Caeto conta que não chegou a terminar o colégio e que sempre foi um péssimo aluno. Além de outras consequências que ter tido liberdade em excesso causaram.

Se houve algum porém, ao meu ver, foi no desfecho. Um tanto brusco para algo tão delicado que é contado no desenrolar do final. Mas não vou entrar em maiores detalhes, pois final é final. Sem mais delongas, recomendo!

Bando de dois

O único problema com Bando de dois, pra quem ainda não leu, é a expectativa gerada pela presença dele em praticamente todas as listas de melhores HQs de 2010. E quase sempre em primeiro lugar ou pelo menos no top 3.

Não que não seja bom. Muito longe disso. A HQ é ótima, por sinal! Mas eu, por exemplo, esperava bem mais da trama – especialmente por constar na frente de HQs que eu gostei muito. Esperava um final mais impactante (sem querer dar spoilers, ok?). E talvez a história tivesse sido melhor explorada se fosse mais extensa. No final, fiquei com a impressão de que as 94 páginas do álbum não foram o bastante pra uma história que tinha um potencial bem maior que isso.

De qualquer maneira, a vingança dos remanescentes de um bando de cangaceiros (o bando de dois do título) é lindamente ilustrada.  Em várias passagens dá pra notar que Danilo Beyruth é um discípulo da cartilha do tio Eisner. E o retorno que ele obteve foi muito merecido mesmo, a arte é muito boa e o talento dele pra contar a história em quadrinhos é demais.

Em termos mais práticos: o cara desossa.  E é por isso que eu o recomendo com louvor! Muito embora tenha dado aquela mordidinha hesitante no lábio ao vê-lo acima de Notas sobre Gaza, de Joe Sacco, por exemplo, nas listas de melhores HQs de 2010.

Mas, se há uma lição a tirar de tudo isso ela é: ignore as listas. É legal ver o que o pessoal compilou, especialmente quem entende de HQ (Paulo Ramos, Telio Navega e outros listadores), mas o mais importante mesmo é não criar expectativas malucas baseadas unicamente na opinião dos outros.

Outro ponto digno de comentário é que ele, assim como Rafael Grampá com Mesmo Delivery anteriormente, foram associados a Sergio Leone, tendo seus quadros comentados por darem um ar cinematográfico às obras. Sinceramente? Acho que ambos são independentes e originais o suficiente. Esse tipo de associação, ao meu ver, não agrega em muita coisa em termos de adjetivar positivamente. Mas né? Cada um é cada um.

Bando de dois tem um site oficial (www.bandodedois.com.br) muito bem feito e lá tem até um trailer. Vale a pena olhar lá e depois ler a HQ, que é muito mais cangaço do que pop, como eu li em alguns sites por aí.

Mas é aquele cangaço todo, hein!

I kill giants

I kill giants (Eu mato gigantes, heh) não saiu no Brasil, mas foi considerada uma das melhores HQs de 2008. E é daquelas que dá a sensação, quando você termina de ler, de que ninguém mais gostou.

 

A HQ independente de Joe Kelly, ilustrada por JM Ken Niimura, é sobre Barbara Thorson: uma menina que tem uma ideia um pouquinho diferente da convencional a respeito da realidade.

Além de jogar RPG e usar orelhas de coelho o tempo todo por aí, ela acredita que gigantes caminham pela Terra e que é capaz de matá-los. Claro que a sanidade da garota é questionada e ela é motivo de chacota na escola, praticamente não tem amigos e, quando alguém tenta fazer amizade, ela não sabe lidar com isso.

É uma mini-série em 7 edições, dá pra ler bem rapidinho, mas é muito mais intensa do que pode parecer.

Conhecida por fazer marmanjos chorarem, ao longo da história são revelados alguns pontos que tornam a coisa toda muito interessante.

Confesso que, depois de ler o primeiro volume, me perguntei que diabo era aquilo e quase não fui para o segundo.  Achei apenas simpático, mas também um tanto idiota e sem sentido. Parece que a menina é só louca e pronto, e que nem a loucura/viagem na maionese em si seriam exploradas.

Mas, já no segundo volume, isso tudo fica para trás. No final das contas, a HQ é bem sensível e fala sobre lidar com coisas difíceis em um momento da vida em que simplesmente estar vivo já é difícil o suficiente.

Então, eu recomendo I kill giants, que você pode baixar aqui.

Ah sim, você, seja homem, mulher, cão, gato, pássaro ou alien, vai chorar no final da história. Depois não diga que eu não avisei.

(Ah eh, só pra constar, a respeito do hiatinho aí do blog: Eu volteeeeeeeeeeeei pras coisas que deixeeeeei! Eu volteeeeeeeeei! E agora vou ficar. Porque aquiiiiiii, aqui é o meu lugaaar!)

Rafael Grampá

Twitter – Matéria em Quadrinhos

Teaser de Cachalote

To me repetindo demais nos últimos posts, mas não podia deixar de postar aqui esse teaser animado lindão que fizeram pra Cachalote!

Logo posto coisa nova, mas esse vídeo vale a pena conferir:

Kill Your Boyfriend

Aí está, Kill Your Boyfriendno original e em uma qualidade melhor. Link para download:
E aí uma das frases-chave, que pra mim define a HQ, e que por sinal é muito foda também.
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